MACBETH
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A ATUALIDADE DE SHAKESPEARE

Podemos dizer que Shakespeare foi um grande observador de seu tempo e que ele trabalhava de modo prático, para um teatro onde era preciso que as peças fossem compreendidas pelo público e correspondessem às suas expectativas. Do ponto de vista histórico, ele viveu de 1564 a 1616 e foi um dramaturgo dentre outros que escrevia para o público londrino da época elisabetana. Mas Shakespeare foi também um poeta e sua obra fala ao homem de hoje com uma incrível atualidade. Se retirarmos dele a pertinência à nossa época, estaremos renunciando à ideia de que um dos mistérios da arte consiste em comunicar com as épocas, culturas e lugares distantes.

Hoje, quando montamos uma peça de Shakespeare, sabemos que devemos aceitar o desafio de adaptá-la ao momento presente. Mas presente e contemporâneo não é a mesma coisa. Existe uma diferença entre a modernização de um texto e a atualidade que ele contém. Qualquer proposta de encenação é possível, mas é preciso que ela permaneça em contato com todos os aspectos da obra que são fecundos e significativos, tanto hoje como no passado. No momento em que o ator e o encenador confrontam o texto à cena, não são os dados históricos e geográficos ou a época elisabetana que são relevantes. O que faz com que uma peça como Macbeth seja atual é o fato de colocar em foco o homem, independente de sua época ou de sua cultura. Isto também é verdadeiro para a tragédia grega. Os personagens que se apresentam ali nos colocam uma questão universal. Eles são representativos do ser humano e não de uma época ou de um lugar.

Em nossa montagem de Macbeth, não nos preocupamos em restituir o contexto histórico e geográfico da peça, nem criar um contexto “moderno”. Procuramos criar uma realidade teatral, indo ao encontro de uma Escócia de teatro, evocando um universo diferente daquele que em vivemos, mas no qual podemos nos reconhecer. Procuramos a poesia da cena para que ela pudesse encontrar a densa poesia do texto de Shakespeare.

Hamlet, Macbeth, Lear ou Ricardo III não pertencem ao passado, nem são prisioneiros de nenhuma época. Esses personagens esclarecem nosso destino e nossos próprios atos, nos ajudando a refletir sobre a vida, a morte e sobre a nossa condição neste mundo.

Ana Teixeira
Publicado em CCBB – Cultura-e | Rio de Janeiro, 2004

 
 
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