SAVINA
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Agreste

OLHAR CIGANO

Foi com a sensação que carregava o mundo em minhas costas que fui assistir SAVINA. Fiquei imaginando qual seria o ultraje, a difamação ou a caricatura que desta vez fariam de meu povo. Durante toda a minha vida, foi isso o que infelizmente vivenciei. Tudo que li, assisti em filmes, peças teatrais e até mesmo em novelas mostrava os ciganos como vilões, ladrões e feiticeiros. Um povo sem princípios morais e sem higiene.

Nossos valores reais, sentimentos e cultura sempre foram desrespeitados. Infelizmente o analfabetismo impera entre meu povo, e por isso, na maioria das vezes, o cigano não tem conhecimento das barbaridades que escrevem sobre nossa gente. Com isso, a impunidade se perpetua! O Povo Cigano sempre foi o excluído dos excluídos, sempre fomos considerados cidadãos na sombra e um povo sem voz.

Entretanto, parece que o mundo está acordando e descobrindo que um povo que passou por atrocidades indescritíveis continua firme e sobrevivendo a todas as agruras sem perder sua ideologia de LIBERDADE. Começam a entender que a sobrevivência deste povo se deve a sua excepcional capacidade de união e solidariedade.

SAVINA fez justiça ao resgatar os reais valores deste povo milenar.

No decorrer do drama inspirado no conjunto de obras de MATEO MAXIMOFF, autor cigano, o que mais me impressionou foi à sensibilidade do texto e sua adaptação. O expectador teve a rara oportunidade de conhecer valores ciganos tais como o amor à família, a importância da virgindade da moça cigana, o respeito aos velhos, a autoridade da Khris Romaí (conselho de sentença cigano) e o respeito à palavra empenhada. Pela primeira vez em minha vida vi nosso jeito de ser e sentir abordado com respeito.

O acordeão dedilhado com sentimento e maestria na peça me transportou ao nosso acampamento em Mesquita, Rio de Janeiro. Ao anoitecer, meu Papu (avô) KAKU RHISTA tocava lamento, amor, protesto e alegria em sua sanfona. Foi um dos maiores compositores do nosso povo. Minha avó costumava dizer que pela maneira dele tocar ela sentia se ele estava triste, alegre ou revoltado.

O acordeão na peça falou mais do que mil palavras.

A atriz que faz o papel de SAVINA consegue passar a força do primeiro amor.

O amor, fonte de felicidade ou tragédia. Divina!

A matriarca cigana é a nossa Phuri Dhiei, nossa rainha e deusa da sabedoria; é a responsável pela preservação de nosso código de ética, costumes e tradições.

A presença forte e eloqüente da atriz que representa a matriarca traduz exatamente a figura da mulher e mãe cigana. Sublime!

O figurino me fez recordar um passado no qual as ciganas tinham orgulho de ostentar suas roupas enfeitadas, seus cabelos trançados à luz do sol ornamentados com moedas de ouro. Daí o ditado popular: “Mais enfeitada do que trança de cigana”.

Em SAVINA, vi um pouco da luta para tirar meu povo de sua invisibilidade secular.

Eu, uma cigana do clã Kalderash, tenho como meta a conquista da dignidade e cidadania para meu povo. Só após participar da IX Conferência Nacional de Direitos Humanos e da 1ª Conferência Nacional de promoção da Igualdade Racial é que consegui que deixassem de ser considerados cidadãos na sombra e um povo sem voz. Aprovamos 29 propostas para melhorar a qualidade de vida do povo cigano no Brasil, sendo que a mais simbólica foi a instituição do Dia Nacional do Cigano. No dia 24 de Maio, dia de nossa padroeira Santa Sara Kali, os ciganos serão lembrados. 
Ver meu povo ser retratado com fidelidade, dignidade e respeito como aconteceu em SAVINA, é para mim mais um motivo para continuar na luta. E principalmente para continuar, com muito orgulho, de ser simplesmente CIGANA.

Mirian Stanescon Batuli - Cigana Rrom Kalderash

 
 
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