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MATEO MAXIMOFF: UMA PONTE ENTRE DOIS MUNDOS

Raros são os que conseguem fazer dos ciganos uma imagem livre de preconceitos. Mulheres mendigando, crianças sujas correndo pelos terrenos baldios, homens suspeitos de furtos e trapaças, nômades com uma paixão violenta pela aventura, um povo livre como cavalos selvagens... As imagens se propagam... Elas contribuem para uma visão mítica, às vezes favorável, outras vezes hostil. De qualquer modo, temos dos ciganos uma percepção imprecisa, forjada ao longo de séculos pelo gadjo (não cigano) e algumas vezes reforçada pelos próprios ciganos.

Diante da vontade de trazer para a cena do teatro o mundo cigano, iniciamos uma pesquisa em busca de tudo o que pudesse nos ajudar a abordar este povo desconhecido, marcado por mitos e preconceitos. Historiadores, antropólogos, pesquisadores, filólogos e filósofos trouxeram informações preciosas para a compreensão da pluralidade deste povo, de sua história e de sua cultura. Mas diante de uma comunidade que possui um modo tão diferente de se colocar diante da vida e de interiorizá-la, a teoria não é o bastante. Ainda estávamos diante do cigano, olhando para ele de fora, através do olhar do gadjo, impregnado de seus valores e de suas técnicas de investigação. Queríamos conhecer os ciganos por eles mesmos.

Começamos então a procurar histórias, livros, registros de uma possível literatura cigana. Nesta sociedade de tradição oral, existem pouquíssimos autores, mas um nome se destaca: Mateo Maximoff. O encontro com sua obra foi determinante. Utilizando os recursos dos gadjos, ou seja, a palavra escrita, ele nos levou numa viagem ao lado de seu povo, sem perder a sua identidade de contador.

Mateo Maximoff nasceu em Barcelona em 1917, de um pai Rrom Kalderash e de uma mãe Manouche. Pertencendo a um povo nômade, ele nunca freqüentou a escola, mas sempre se interessou pela escrita. Aos sete anos, aprendeu sozinho a ler e a escrever, recolhendo revistas em terrenos baldios. Ele conheceu a guerra e os campos de internamento. Mais tarde, já adulto, depois de uma briga entre duas famílias que resultou em morte, Maximoff foi preso com outros Rroms. Foi durante este período na cadeia que ele escreveu seu primeiro livro: “Os Ursitorys”, a partir das histórias que ele ouvia sua avó contar. Ele mostrou o manuscrito a seu advogado que o apresentou a editora francesa Flammarion e assim começou sua carreira de escritor.

Como autor, ele é uma das figuras mais singulares da literatura. Sua obra, com fortes conotações autobiográficas, suprime a distância que existe entre o romance e o conto. Ele transmite a palavra de um mundo, dando acesso a uma literatura popular que é a literatura do movimento e da sinceridade.

Hoje, Maximoff é traduzido em várias línguas e se tornou a voz e o testemunho de seu povo. Respeitado e traduzido em toda a Europa, ele ainda é desconhecido do público brasileiro. Cada obra sua se torna um clássico indispensável para quem quer conhecer o povo cigano, com suas convenções, seus costumes e tradições. Cada detalhe, cada palavra é absolutamente justa para quem freqüentou de perto esta sociedade.

Maximoff não é um homem do rompimento nem do isolamento. Ao contrário, ele encarna a integração mútua e recíproca das culturas, conseguindo atingir, através de suas histórias, a parte de humanidade que está contida em cada um de nós. Ele abre a passagem entre o mundo dos ciganos e o mundo dos gadjos. Dele, dizemos com freqüência: “é um dos raros escritores autenticamente ciganos”, mas esquecemos de dizer que ele foi o primeiro cigano a escrever romances. Seus livros são documentos literários que só terão seu valor devidamente reconhecido quando a cultura cigana for realmente reconhecida.

Ana Teixeira – publicado em CCBB – Cultura-e / Rio de Janeiro, 2006

 

 
 
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