Histórias de Família

Nessa última parte da Trilogia da Guerra, mergulhamos num dos conflitos mais sangrentos ocorridos na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial: a guerra que desmantelou a Iugoslávia nos anos noventa. Histórias de Familia, adaptação do texto da dramaturga sérvia Biljana Srbljanovic, trata da guerra a partir do olhar da infância.

Nas ruínas da Iugoslávia, quatro personagens brincam de família, reproduzindo o comportamento delirante de adultos desorientados. A violência das brincadeiras substitui a violência dos combates e nesse ritual, pouco a pouco, revela-se a lógica da guerra, criada e mantida pelo poder político, que se manifesta em todos os níveis da sociedade.

Para falar de uma sociedade saturada de ódio, onde a violência e a perversidade se tornaram reflexos de sobrevivência, Biljana Srbljanovic escolheu a derrisão e o absurdo. A autora nos leva a ver a guerra através do lúdico e a ver o teatro como o lugar onde os adultos continuam a fazer aquilo que fazem as crianças: produzir jogo. Essas “histórias de família” são, ao mesmo tempo, a imagem da situação da ex-Iugoslávia e a imagem de qualquer sociedade.

 

"Todos esses fantasmas que ficam á minha volta, todas essas pessoas que morreram nessa guerra... e eu, que ainda estou viva, sou obrigada a viver com todas essas lembranças."

Histórias de Família - Amok Teatro



GALERIA




FICHA T√ČCNICA

Texto Biljana Brbljanovic
Direção e Adaptação Ana Teixeira e Stephane Brodt.
Tradução Ana Teixeira e Jadrana Andjelic
Elenco
- Vojin Stephane Brodt
- Milena Rosana Barros
- Nadejda Vanessa Dias
- Andria Bruce Ara√ļjo
Iluminação Renato Machado
Figurino e objetos Stephane Brodt
Cen√°rio Ana Teixeira
Confecção da lousa e piso Manoel Puoci
Projeto gr√°fico Paulo Lima
Produção Erick Ferraz




IMPRENSA




TEXTOS

TRILOGIA DA GUERRA

Trilogia da Guerra √© uma trajet√≥ria que tem suas ra√≠zes no Ecum - Encontro Mundial das Artes C√™nicas ¬Ė um f√≥rum internacional que reuniu em 2006, no Brasil, artistas, pesquisadores e profissionais em torno de uma reflex√£o sobre O Teatro em Tempos de Guerra. 

Qual é o papel do teatro diante do sofrimento e da violência? Como o teatro responde aos desafios e questionamentos colocados pelo mundo em guerra?
Artistas vindos de diferentes partes do mundo compartilharam suas experi√™ncias. Diferentes hist√≥rias, culturas e trabalhos apontaram para um teatro que pode testemunhar, agir solidariamente e se insurgir contra brutalidade. 

Dessas experi√™ncias, o encontro com os atores iranianos do Siah B√Ęzi, Saadi Afshar e Shadi Zadeh, repercutiu sobre a trajet√≥ria do Amok. O Siah B√Ęzi √© uma forma de teatro c√īmico que improvisa cenas repletas de alus√Ķes √† atualidade e √† pol√≠tica. Em 2003, o governo iraniano decidiu, sem aviso pr√©vio, fechar o Teatro Nasr ¬Ė o mais antigo de Teer√£. Os atores do Siah B√Ęziforam expulsos do lugar onde trabalhavam e ficaram desamparados, impossibilitados de exercerem sua arte. O Siah B√Ęzi incomodava e o p√ļblico iraniano viu seu teatro ser silenciado.

A intensidade desse encontro nos impulsionou a mergulhar num projeto sobre o tema da guerra que pudesse refletir nosso desejo de afirmar o teatro como um lugar de conv√≠vio para pensar o mundo em que vivemos. Desejo tamb√©m de investigar formas de dialogar com o real e procurar novas linguagens que permitam uma leitura do nosso tempo a partir de quest√Ķes humanas universais. 

Assim, iniciamos um percurso que resultou na cria√ß√£o de tr√™s espet√°culos: O Drag√£o (2008), Kabul (2009) e Hist√≥rias de Fam√≠lia (2012). Nessa trilogia apresentamos tr√™s espet√°culos independentes, tr√™s retratos da guerra e tr√™s diferentes experi√™ncias de linguagem c√™nica. 

Nesse projeto, n√£o pensamos na guerra como um fen√īmeno que atinge apenas alguns, ou um determinado povo. Nosso objetivo foi abordar esse tema a partir da alteridade. Um desejo de aproxima√ß√£o, de pensar a quest√£o da viol√™ncia a partir da experi√™ncia do outro buscando uma identidade humana e sem fronteiras. Para al√©m dos limites geogr√°ficos, hist√≥ricos ou culturais, o que colocamos em foco √© o homem diante da viol√™ncia de sua √©poca.

Acreditamos que esse olhar em dire√ß√£o ao estrangeiro responde a quest√Ķes levantadas pela globaliza√ß√£o em que migra√ß√£o, minorias, individualismo, cultura de consumo e tentativas de hegemonia s√£o realidades efetivas. Nossa inten√ß√£o foi compartilhar nossa perplexidade diante do monstro da guerra, traduzindo isso cenicamente, em atos, sons e movimentos.

Abordamos problemas que consideramos fundamentais na hist√≥ria contempor√Ęnea, acreditando que o teatro pode ser um lugar de discuss√£o desses problemas. O que pode ser dito atrav√©s do discurso c√™nico n√£o pode ser dito atrav√©s de nenhum outro discurso (cient√≠fico, pol√≠tico ou jornal√≠stico) e, por isso mesmo, ele pode interferir sobre a percep√ß√£o que temos do real. Nesse percurso, espet√°culos, debates e encontros com o p√ļblico foram indissoci√°veis.

Trilogia da Guerra √© um projeto sobre a mem√≥ria, sobre um teatro que persiste em n√£o esquecer. Um teatro que dialoga com nossa √©poca, com seus impasses, seus desejos, seus sofrimentos e suas esperan√ßas.
Ana Teixeira

 


 

OLHAR CR√ćTICO

Desde seu primeiro trabalho no Rio de Janeiro, Ana Teixeira e Stephane Brod t√™m mostrado, repetidamente, que o comedimento e a disciplina jamais deixam de formar a solida base sobre a qual constroem seus espet√°culos; sobre ela, uma consci√™ncia clara do valor de cada uma das linguagens c√™nicas os tem levado a fazer uma s√©rie de positivas contribui√ß√Ķes para o progresso do teatro brasileiro, sempre produtos de longa reflex√£o e detalhado preparo.

Os tr√™s espet√°culos que comp√Ķem a “Trilogia da Guerra’” deixaram forte marca, e se destacam no panorama carioca, pela seriedade e a perseveran√ßa com que Teixeira e Brodt t√™m se esfor√ßado para expressar em leg√≠tima manifesta√ß√£o cultural brasileira, o produto de suas forma√ß√Ķes europ√©ias, sempre buscando encena√ß√Ķes simples, austeras, que usam os valores b√°sicos do teatro para suas encena√ß√Ķes.

A guerra, toda e qualquer guerra, tem sido tema de incont√°veis obras dram√°ticas, de teatro ou cinema, tantas vezes exploradas pelo simples impacto que mortos, feridos e batalhas podem ter; mas no caso da “Trilogia de Guerra” do Teatro Amok, o grande m√©rito √© a habilidade com que¬† tudo o que √© f√°cil e √≥bvio foi abandonado, e com que foram repudiados¬† o patriotismo e a ideologia,¬† que com tanta facilidade servem para a propaganda e as exalta√ß√Ķes .¬†

“Drag√£o”, “Kabul” e “Hist√≥rias de Fam√≠lias”, ao enveredar pelo duro caminho daqueles que sofrem a guerra, dos que n√£o a buscam ou querem, mas s√£o por ela vitimados, pisam em terreno dif√≠cil, delicado, e por depoimentos ou a√ß√Ķes investigam o sofrimento humano, falam de perdas, muito al√©m das materiais, de ra√≠zes, de membros de fam√≠lia que se esfacelam, de amigos que as circunst√Ęncias tornam inimigos.

De todas essas trag√©dias o Teatro Amok tem falado de forma aguda, penetrante, sem um √ļnico momento de exagero ou apela√ß√£o, com uma economia que torna marcas, gestos, tons mais significativos por serem poucos, exigindo do ator uma interpreta√ß√£o comedida, mesmo que seja, na verdade, apaixonada.¬†

Tudo isso, é claro, é a expressão de uma visão específica de teatro, na qual texto e ator, em um palco, não têm limites para o que podem transmitir, usando a própria imaginação para alcançar a do espectador, e fazer se realizar o milagre teatral. 

Espetáculos do nível que têm tido os do Teatro  Amok  não acontecem não acontecem por acaso; são o resultado de um trabalho dedicado e consciente, de uma paixão por atingir aquele momento extraordinário, quase miraculoso, que Ana Teixeira e Stephane Brodt acreditam que uma implacável dedicação pode criar. 

Barbara Heliodora











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