Savina

Savina Ã© uma criação inspirada no conjunto da obra do escritor cigano Mateo Maximoff. O espetáculo propõe um mergulho no universo da comunidade Rrom, em sua cultura, em seu modo tão particular de viver.

Os ciganos não têm pátria nem fronteira, mas são unidos por uma língua: o romani. Foi com ela, com sua musicalidade e suas nuances, que criamos os personagens e o espetáculo.

Savina conta a história de amor entre dois jovens, prometidos em casamento desde antes de seu nascimento que desemboca numa tragédia provocada pela recusa ao cumprimento da palavra dada.

O espetáculo estreou em 2006, recebeu a indicação ao prêmio Shell de melhor figurino para Stephane Brodt e foi aclamado pela comunidade cigana brasileira através de suas lideranças, considerado uma expressão autêntica da cultura Rhom, no ano Internacional de Luta Contra o Preconceito e Integração do Povo Cigano.

 

"Eu tenho orgulho de pertencer a um povo que nunca declarou a guerra, porque nós, os ciganos, nunca tivemos necessidade de ter um território, não eliminamos nem empurramos outras populações para nos instalarmos em seu lugar."

Mateo Maximoff



GALERIA




FICHA TÉCNICA

Texto e concepção Ana Teixeira e Stephane Brodt a partir da obra de Mateo Maximoff
Direção Ana Teixeira
Elenco
- Klebari Stephane Brodt
- Vasila Gustavo Damasceno
- Ordanka Ludmila Wischansky
- Savina Nívea Magno
- Ika Breno Primo de Melo
- Tchoukouro Ricardo Damasceno
- Stervo Cassiano Gomes
- Tchero Kely Brito
- Crianças Joana Brodt (Tereina) e Julia Limp (Tchuli)
Música Mintcho Garramone
Iluminação Renato Machado
Cenário Ana Teixeira
Figurino Stephane Brodt
Projeto gráfico Paulo Lima
Costureira Wandete Silva
Cenotécnico Eduardo Alves
Produção André Schmidt




IMPRENSA




TEXTOS

MATEO MAXIMOFF: UMA PONTE ENTRE DOIS MUNDOS

Raros são os que conseguem fazer dos ciganos uma imagem livre de preconceitos. Mulheres mendigando, crianças sujas correndo pelos terrenos baldios, homens suspeitos de furtos e trapaças, nômades com uma paixão violenta pela aventura, um povo livre como cavalos selvagens... As imagens se propagam... Elas contribuem para uma visão mítica, às vezes favorável, outras vezes hostil. De qualquer modo, temos dos ciganos uma percepção imprecisa, forjada ao longo de séculos pelo gadjo (não cigano) e algumas vezes reforçada pelos próprios ciganos.

Diante da vontade de trazer para a cena do teatro o mundo cigano, iniciamos uma pesquisa em busca de tudo o que pudesse nos ajudar a abordar este povo desconhecido, marcado por mitos e preconceitos. Historiadores, antropólogos, pesquisadores, filólogos e filósofos trouxeram informações preciosas para a compreensão da pluralidade deste povo, de sua história e de sua cultura. Mas diante de uma comunidade que possui um modo tão diferente de se colocar diante da vida e de interiorizá-la, a teoria não é o bastante. Ainda estávamos diante do cigano, olhando para ele de fora, através do olhar do gadjo, impregnado de seus valores e de suas técnicas de investigação. Queríamos conhecer os ciganos por eles mesmos.

Começamos então a procurar histórias, livros, registros de uma possível literatura cigana. Nesta sociedade de tradição oral, existem pouquíssimos autores, mas um nome se destaca: Mateo Maximoff. O encontro com sua obra foi determinante. Utilizando os recursos dos gadjos, ou seja, a palavra escrita, ele nos levou numa viagem ao lado de seu povo, sem perder a sua identidade de contador.

Mateo Maximoff nasceu em Barcelona em 1917, de um pai Rrom Kalderash e de uma mãe Manouche. Pertencendo a um povo nômade, ele nunca freqüentou a escola, mas sempre se interessou pela escrita. Aos sete anos, aprendeu sozinho a ler e a escrever, recolhendo revistas em terrenos baldios. Ele conheceu a guerra e os campos de internamento. Mais tarde, já adulto, depois de uma briga entre duas famílias que resultou em morte, Maximoff foi preso com outros Rroms. Foi durante este período na cadeia que ele escreveu seu primeiro livro: “Os Ursitorys”, a partir das histórias que ele ouvia sua avó contar. Ele mostrou o manuscrito a seu advogado que o apresentou a editora francesa Flammarion e assim começou sua carreira de escritor.

Como autor, ele é uma das figuras mais singulares da literatura. Sua obra, com fortes conotações autobiográficas, suprime a distância que existe entre o romance e o conto. Ele transmite a palavra de um mundo, dando acesso a uma literatura popular que é a literatura do movimento e da sinceridade.

Hoje, Maximoff é traduzido em várias línguas e se tornou a voz e o testemunho de seu povo. Respeitado e traduzido em toda a Europa, ele ainda é desconhecido do público brasileiro. Cada obra sua se torna um clássico indispensável para quem quer conhecer o povo cigano, com suas convenções, seus costumes e tradições. Cada detalhe, cada palavra é absolutamente justa para quem freqüentou de perto esta sociedade.

Maximoff não é um homem do rompimento nem do isolamento. Ao contrário, ele encarna a integração mútua e recíproca das culturas, conseguindo atingir, através de suas histórias, a parte de humanidade que está contida em cada um de nós. Ele abre a passagem entre o mundo dos ciganos e o mundo dos gadjos. Dele, dizemos com freqüência: “é um dos raros escritores autenticamente ciganos”, mas esquecemos de dizer que ele foi o primeiro cigano a escrever romances. Seus livros são documentos literários que só terão seu valor devidamente reconhecido quando a cultura cigana for realmente reconhecida.

Ana Teixeira – publicado em CCBB – Cultura-e / Rio de Janeiro, 2006




OLHAR CIGANO

Foi com a sensação que carregava o mundo em minhas costas que fui assistir SAVINA. Fiquei imaginando qual seria o ultraje, a difamação ou a caricatura que desta vez fariam de meu povo. Durante toda a minha vida, foi isso o que infelizmente vivenciei. Tudo que li, assisti em filmes, peças teatrais e até mesmo em novelas mostrava os ciganos como vilões, ladrões e feiticeiros. Um povo sem princípios morais e sem higiene.

Nossos valores reais, sentimentos e cultura sempre foram desrespeitados. Infelizmente o analfabetismo impera entre meu povo, e por isso, na maioria das vezes, o cigano não tem conhecimento das barbaridades que escrevem sobre nossa gente. Com isso, a impunidade se perpetua! O Povo Cigano sempre foi o excluído dos excluídos, sempre fomos considerados cidadãos na sombra e um povo sem voz.

Entretanto, parece que o mundo está acordando e descobrindo que um povo que passou por atrocidades indescritíveis continua firme e sobrevivendo a todas as agruras sem perder sua ideologia de LIBERDADE. Começam a entender que a sobrevivência deste povo se deve a sua excepcional capacidade de união e solidariedade.

SAVINA fez justiça ao resgatar os reais valores deste povo milenar.

No decorrer do drama inspirado no conjunto de obras de MATEO MAXIMOFF, autor cigano, o que mais me impressionou foi à sensibilidade do texto e sua adaptação. O expectador teve a rara oportunidade de conhecer valores ciganos tais como o amor à família, a importância da virgindade da moça cigana, o respeito aos velhos, a autoridade da Khris Romaí (conselho de sentença cigano) e o respeito à palavra empenhada. Pela primeira vez em minha vida vi nosso jeito de ser e sentir abordado com respeito.

O acordeão dedilhado com sentimento e maestria na peça me transportou ao nosso acampamento em Mesquita, Rio de Janeiro. Ao anoitecer, meu Papu (avô) KAKU RHISTA tocava lamento, amor, protesto e alegria em sua sanfona. Foi um dos maiores compositores do nosso povo. Minha avó costumava dizer que pela maneira dele tocar ela sentia se ele estava triste, alegre ou revoltado.

O acordeão na peça falou mais do que mil palavras.

A atriz que faz o papel de SAVINA consegue passar a força do primeiro amor.

O amor, fonte de felicidade ou tragédia. Divina!

A matriarca cigana é a nossa Phuri Dhiei, nossa rainha e deusa da sabedoria; é a responsável pela preservação de nosso código de ética, costumes e tradições.

A presença forte e eloqüente da atriz que representa a matriarca traduz exatamente a figura da mulher e mãe cigana. Sublime!

O figurino me fez recordar um passado no qual as ciganas tinham orgulho de ostentar suas roupas enfeitadas, seus cabelos trançados à luz do sol ornamentados com moedas de ouro. Daí o ditado popular: “Mais enfeitada do que trança de cigana”.

Em SAVINA, vi um pouco da luta para tirar meu povo de sua invisibilidade secular.

Eu, uma cigana do clã Kalderash, tenho como meta a conquista da dignidade e cidadania para meu povo. Só após participar da IX Conferência Nacional de Direitos Humanos e da 1ª Conferência Nacional de promoção da Igualdade Racial é que consegui que deixassem de ser considerados cidadãos na sombra e um povo sem voz. Aprovamos 29 propostas para melhorar a qualidade de vida do povo cigano no Brasil, sendo que a mais simbólica foi a instituição do Dia Nacional do Cigano. No dia 24 de Maio, dia de nossa padroeira Santa Sara Kali, os ciganos serão lembrados.  
Ver meu povo ser retratado com fidelidade, dignidade e respeito como aconteceu em SAVINA, é para mim mais um motivo para continuar na luta. E principalmente para continuar, com muito orgulho, de ser simplesmente CIGANA.

Mirian Stanescon Batuli - Cigana Rrom Kalderash








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