Jogo de Damas é uma criação a partir da obra Fim de Jogo de Samuel Beckett e do universo musical do compositor estoniano Arvo Pärt. O espetáculo coloca em cena Emma e Clara, duas velhas reclusas que sofrem com a escassez de alimentos, remédios, sonhos e ideais em um mundo apocalíptico. Presas em um universo que se limita aos contornos de uma casa, essas duas senhoras cuidam uma da outra, lembrando o passado e a existência que tinham para além das paredes. Jogo de Damas é um ensaio sobre a solidão, a velhice e a condição humana face à finitude do corpo, do mundo e da vida. Sobre o medo da morte e a morte dos sonhos.
O projeto iniciou com uma pesquisa dos atores Stephane Brodt e Gustavo Damasceno sobre os personagens femininos de “Ricardo III”, de Shakespeare: um estudo sobre duas velhas rainhas. Em uma segunda etapa do trabalho essa pesquisa foi levada para outros contextos, até chegarem ao universo de Beckett, onde os atores aprofundaram o estudo sobre a velhice e a morte, inspirados em suas próprias mães. O universo de Beckett foi atravessado por essa abordagem e o Fim de Partida tornou-se um “Jogo de Damas”.
Jogo de Damas estreou no Rio de Janeiro e foi indicado ao Prêmios Cesgranrio de teatro de melhor iluminação e melhor cenário e ao Prêmio Botequim Cultural de melhor texto.
“Durante toda a vida, as mesmas perguntas, as mesmas respostas, as mesmas banalidades. Por que está farsa, dia após dia?”
GALERIA
FICHA TÉCNICA
Texto Stephane Brodt (a partir da obra Fim de Jogo de Samuel Beckett)
Elenco Gustavo Damasceno e Stephane Brodt
Direção Ana Teixeira e Stephane Brodt
Assistente de direção Julia Limp
Iluminação Renato Machado
Música Arvo Pärt
Edição de som Gabriel Petit
Cenário e figurino Stephane Brodt
Cenotécnico Beto de Almeida
Produção executiva Gabriel Garcia
Direção de Produção Amok Teatro e Sonia Dantas
IMPRENSA
CRÍTICA
No preciosismo formalista e tragicômico de um Jogo de Damas com intrincados lances “mallarmaicos” de dados, no entremeio de um resultado especular que o coloca entre o reflexo e a autenticidade, prevalece outro luminoso investimento estético do Amok Teatro sintonizado com avanços investigativos na dramaturgia contemporânea.
Nessa homenagem dos filhos para suas mães, bela forma de cuidado, o rigor na composição física, no cenário e nos figurinos que caracteriza o trabalho do Amok desde os seus primórdios é associado à música do compositor estoniano Arvo Part.
A par de dois magistrais e exemplares trabalhos de interpretação, ou por trás disso, há uma bela direção, de Stephane Brodt, com a luxuosa supervisão de Ana Teixeira, o que já garante, em muito, o sucesso de qualquer montagem da AMOK.
Numa direção milimetricamente sofisticada, Stephane Brodt (também ator) dá vida aos personagens de maneira onírica ao criar um texto altamente farsesco. Para isso, ele conta com a atuação sublime de Gustavo Damasceno.
Marca da Cia. Amok, o refinamento da concepção cênica se encontra estampado nas escolhas que atravessam essa montagem intimista, a julgar pela ótima iluminação, ora intensa, ora melancólica, que delimita uma espacialidade, a cargo de Renato Machado, pela cenografia cirúrgica, asséptica, de Brodt e pelo emprego sutil, mas constante, da música de Arvo Pärt, valendo realçar o ruído de tensão que impera ao longo da encenação.